Autismo: 4 Fatos Surpreendentes Que Estão Mudando o Diagnóstico e o Tratamento no Brasil
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um assunto cada vez mais presente em nossas conversas, escolas e políticas de saúde. Mesmo assim, o tema ainda é cercado de dúvidas, mitos e informações desatualizadas que podem gerar angústia e atrasar ações essenciais. A boa notícia é que a ciência e as políticas públicas estão avançando, trazendo novas perspectivas que transformam a maneira como lidamos com o autismo.
Neste artigo, vamos explorar o tamanho do desafio no diagnóstico e, em seguida, as três poderosas mudanças — na prática clínica, na percepção e na política pública — que estão sendo implementadas para enfrentá-lo. Prepare-se para atualizar seus conhecimentos e entender por que agir cedo e de forma informada faz toda a diferença.
A Janela de Oportunidade Perdida: O Atraso no Diagnóstico Brasileiro é Mais Grave do Que se Imagina
O contraste é alarmante. Enquanto em países como os Estados Unidos o diagnóstico é frequentemente feito antes dos 3 anos, um estudo mostrou que no Brasil o transtorno só é identificado quando a criança já tem entre 5 e 7 anos.
Esse atraso é crítico. O autismo se instala nos primeiros três anos de vida, um período em que os neurônios responsáveis pela comunicação e pelos relacionamentos sociais estão formando conexões cruciais. Quando o transtorno demora a ser reconhecido, esses neurônios não recebem o estímulo necessário na hora certa, e a criança perde uma janela de oportunidade valiosa para o aprendizado.
A jornada da família de Kevin ilustra o sofrimento causado por essa demora. Por seis anos, seus pais buscaram respostas para os comportamentos do filho, recebendo diagnósticos conflitantes que iam de “retardo mental grave” a “birra”, uma incerteza que prolongou a angústia da família. Anos depois, um neuropediatra, ao analisar vídeos antigos, identificou que os primeiros sinais já estavam presentes quando Kevin tinha apenas um ano de vida. A família só recebeu o diagnóstico de autismo seis anos depois, perdendo a chance de iniciar o tratamento na fase mais importante do desenvolvimento. A preocupação da mãe com o futuro do filho reflete o peso desse diagnóstico tardio.
“A gente sempre fala que a gente não vai ficar assim pro resto da vida, como que será que vai ser ele sozinho? Quem vai querer cuidar dele? Como será que vai ser a vida do Kevin? A gente se preocupa já com isso. ‘E complicado, né?”
Agir Antes de Confirmar: A Intervenção Precoce Não Precisa (e Não Deve) Esperar o Laudo Final
Aqui reside uma das mais poderosas mudanças de paradigma: a intervenção precoce não deve esperar pelo laudo final. A orientação de especialistas e do Ministério da Saúde é clara: agir aos primeiros sinais. Essa recomendação é baseada em uma razão científica poderosa: a neuroplasticidade. O cérebro infantil é extremamente adaptável, e a intervenção precoce aproveita essa capacidade para promover melhores resultados a longo prazo.
A nova Linha de Cuidado do Ministério da Saúde reforça essa urgência, orientando que a assistência comece imediatamente após a identificação de qualquer atraso no desenvolvimento.
“A principal recomendação da nova linha é garantir o diagnóstico e as intervenções mais precoces possíveis, sem a necessidade de esperar o fechamento do diagnóstico, para estimular o desenvolvimento das crianças e apoiar suas famílias.”
– Alexandre Padilha, Ministro da Saúde
Para Além dos “Sintomas”: Um Jeito Diferente de Organizar e Perceber o Mundo
Muitas características associadas ao TEA não são apenas déficits, mas o resultado de uma forma fundamentalmente diferente de processar informações e perceber o mundo. Em vez de focar apenas em “sintomas”, é essencial compreender a lógica por trás de certos comportamentos.
Dois casos ajudam a ilustrar essa perspectiva:
• O caso de Gabriel: Um teste que utilizava a tecnologia de rastreamento ocular para mapear sua atenção revelou que Gabriel demonstrou mais interesse por um relógio do que pelo rosto de um bebê. Isso sugere que seu interesse se volta para objetos e sistemas, não necessariamente para interações sociais. Em outra cena, ele teve dificuldade em interpretar o contexto geral, mostrando uma tendência a ver o mundo de forma “fragmentada”.
• O caso de Ana Beatriz: Ao receber uma caixa de brinquedos, em vez de criar uma brincadeira lúdica, ela começou a organizar os trenzinhos sistematicamente por tamanho e cor. Esse comportamento não é uma falta de imaginação, mas uma manifestação de uma mente que busca classificar e ordenar o ambiente ao seu redor.
Essa necessidade de sistematização é uma característica central, como explica o neuropediatra Salomão Schwartzman.
“Não é um brincar lúdico. Isso é uma organização, é uma coisa sistemática. Eles são extremamente sistemáticos. O mundo da criança com autismo é um mundo que ela tenta classificar, organizar, sistematizar.”
É fundamental também combater a desinformação. A Secretaria da Saúde é clara ao afirmar:
Atenção: vacinas não são fatores de risco para o desenvolvimento do TEA.
Teste Para Todos: O Rastreamento do Autismo Agora é Rotina no SUS para Crianças de 16 a 30 Meses
Essa compreensão mais profunda é inútil se não chegar a tempo. É exatamente por isso que a próxima mudança é, talvez, a mais transformadora de todas: uma nova política pública para garantir que nenhuma criança passe despercebida. A nova Linha de Cuidado do Ministério da Saúde orienta os profissionais da atenção primária a aplicarem um teste de triagem, conhecido como M-Chat, em TODAS as crianças entre 16 e 30 meses como parte da rotina de avaliação do desenvolvimento.
O objetivo é claro: realizar um rastreio em massa para identificar sinais de alerta o mais cedo possível e iniciar a assistência imediatamente. Ao integrar o teste à Caderneta Digital da Criança, a ferramenta de rastreio se torna parte do ecossistema de saúde infantil que já acompanha a criança desde o nascimento, transformando a detecção precoce de um evento raro em uma rotina universal.
Esta ação faz parte de uma estratégia maior que visa fortalecer os Centros Especializados em Reabilitação (CERs) e focar no acolhimento e suporte às famílias. Esses programas de treinamento são a resposta direta ao desamparo expresso por famílias como a de Kevin, oferecendo não apenas diagnóstico, mas um caminho de acolhimento e capacitação.
Da Identificação ao Acolhimento
As novas abordagens sobre o autismo no Brasil marcam uma transição fundamental: saímos de um modelo reativo, que esperava a confirmação de um problema, para uma abordagem proativa, precoce e centrada no apoio integral à criança e sua família. Compreender o TEA não como uma coleção de déficits, mas como uma forma diferente de neurodesenvolvimento, é o primeiro passo para uma inclusão verdadeira.
Com essas novas abordagens, como podemos, enquanto sociedade, não apenas identificar, mas verdadeiramente acolher e potencializar as diferentes formas de ver o mundo que o espectro autista nos apresenta?