Níveis de Suporte no Autismo

Níveis de Suporte no Autismo

Mudança Paradigmática: Do Funcionamento à Necessidade de Suporte

Atualmente, a comunidade científica e clínica evita termos como “leve”, “moderado” ou “grave” para descrever o autismo, preferindo uma abordagem dimensional que considera:

  1. Níveis de suporte necessários (DSM-5)
  2. Perfil multidimensional (CID-11)
  3. Contexto ambiental e suas demandas
  4. Comorbidades associadas

Classificação do DSM-5 (2013-presente)

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª edição) define três níveis de suporte:

Nível 1: “Requer suporte”

  • Comunicação social: Dificuldades notáveis sem suportes; iniciativa social reduzida
  • Comportamentos restritos/repetitivos: Interferem significativamente em um ou mais contextos
  • Suporte necessário: Estruturação para tarefas complexas, orientação em situações sociais novas

Nível 2: “Requer suporte substancial”

  • Comunicação social: Déficits marcantes mesmo com suportes; fala limitada
  • Comportamentos restritos/repetitivos: Óbvios ao observador casual; interferem em múltiplos contextos
  • Suporte necessário: Suporte diário significativo

Nível 3: “Requer suporte muito substancial”

  • Comunicação social: Déficits graves; funcionamento muito prejudicado
  • Comportamentos restritos/repetitivos: Prejuízo significativo em todas áreas
  • Suporte necessário: Suporte muito intenso e constante

CID-11 (2022)

A Classificação Internacional de Doenças (11ª revisão) adota abordagem similar, mas com descritores mais funcionais, considerando:

Dados Epidemiológicos e Distribuição

Prevalência Global

  • Estimativa média: 1-2% da população mundial (Zeidan et al., 2022)
  • Variações: 1:36 nos EUA (CDC, 2023); 1:100 na Europa (European Autism, 2022)
  • Distribuição por nível (estimativas):
    • Nível 1: 40-50% dos diagnosticados
    • Nível 2: 30-35%
    • Nível 3: 20-25%

Distribuição Demográfica

  • Gênero: Proporção homem-mulher ≈ 3:1 no nível 1, ≈ 2:1 no nível 2, ≈ 1.5:1 no nível 3
  • Condições intelectuais concomitantes:
    • ≈ 30% com deficiência intelectual significativa (QI < 70)
    • ≈ 25% na faixa limítrofe (QI 71-85)
    • ≈ 45% na média ou acima (IQ > 85)

Comorbidades Frequentes (Lai et al., 2019)

  • Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH): 30-50%
  • Ansiedade: 40-50%
  • Distúrbios do sono: 50-80%
  • Epilepsia: 5-30% (mais comum em autistas com deficiência intelectual)
  • Distúrbios gastrointestinais: 9-70% (variação ampla)

Critérios Atuais de Avaliação Multidimensional

1. Domínio da Comunicação Social

  • Nível 1: Dificuldade em iniciar/ manter interações; respostas atípicas
  • Nível 2: Déficits verbais/não-verbais marcantes; interações limitadas
  • Nível 3: Uso mínimo da fala; interação social muito limitada

2. Comportamentos Restritos/Repetitivos

  • Intensidade: Frequência, duração e resistência à interrupção
  • Impacto funcional: Grau de interferência nas atividades diárias
  • Manifestações: Estereotipias motoras, insistência na mesmice, interesses intensos, hiper/hiporeatividade sensorial

3. Habilidades Adaptativas

  • Medidas por instrumentos como Vineland-3 ou ABAS-3
  • Domínios: Comunicação, vida diária, socialização
  • Desempenho típico: Autistas frequentemente mostram perfis desiguais

4. Contexto Ambiental

  • Fator crítico: Mesmo indivíduo pode necessitar diferentes níveis de suporte conforme ambiente
  • Suportes naturais vs. formais: Importância de adaptações ambientais

Instrumentos de Avaliação Quantitativa

Escalas Padronizadas

  • ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule): Considerado padrão-ouro
  • ADI-R (Autism Diagnostic Interview-Revised): Entrevista com cuidadores
  • CARS-2 (Childhood Autism Rating Scale): Classifica de “leve” a “grave”
  • SRS-2 (Social Responsiveness Scale): Mede gravidade dos traços

Pontuações de Referência

  • ADOS-2: Comparativo 1-10 (maior = mais traços)
  • CARS-2:
    • 15-29.5: Não autista
    • 30-36.5: Autismo leve-moderado
    • 37-60: Autismo grave
  • SRS-2: T-scores (média=50, DP=10)

Limitações do Sistema de Níveis

Críticas Atuais

  1. Variabilidade contextual: Necessidades mudam conforme ambiente
  2. Estabilidade temporal: Nível pode mudar ao longo da vida
  3. Visão reducionista: Não captura complexidade multidimensional
  4. Foco no déficit: Menos ênfase nas habilidades e pontos fortes

Abordagens Emergentes

  • Perfis baseados em necessidades (APA, 2022)
  • Classificação por padrões de suporte (International Classification of Functioning)
  • Modelos neuroafirmativos: Foco em acomodações necessárias versus “gravidade”

Recomendações para Comunicação Atualizada

Terminologia Preferida

  • (V) “Autista que requer apoio significativo nas interações sociais”
  • (V) “Autista com demandas sensoriais intensas”
  • (V) “Autista com apoio extensivo na comunicação”
  • (X) Evitar: “Autismo leve” (minimiza desafios), “autismo grave” (foco excessivo no déficit)

Documentação Clínica Atual

Deve incluir:

  1. Nível de suporte (DSM-5)
  2. Descrição qualitativa das características
  3. Habilidades e interesses
  4. Contextos de funcionamento ótimo
  5. Comorbidades e condições associadas
  6. Necessidades específicas de apoio

Referências Científicas Chave

  1. American Psychiatric Association (2022). DSM-5-TR Updates.
  2. World Health Organization (2022). ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics.
  3. Lai, M.C. et al. (2019). “Prevalence of co-occurring conditions in autism.” Autism Research.
  4. Lord, C. et al. (2020). “Autism spectrum disorder.” Nature Reviews.
  5. CDC (2023). “Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network.”
  6. European Autism (2022). “Prevalence studies in EU countries.”

Conclusão: Visão Atualizada

A definição contemporânea reconhece que:

  • O autismo é heterogêneo com apresentações únicas
  • Necessidades de suporte flutuam conforme contexto e desenvolvimento
  • Avaliação deve ser multidimensional e contextual
  • A linguagem deve focar em suportes necessários ao invés de rótulos de severidade
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